ESTRUTURA DE “FUNDAÇÃO” DO CORPO E DA ALMA

4bVocê que vem acompanhando esta coluna, principalmente os três últimos textos, onde abordamos a integração corpo e mente na visão de Joseph Pilates, pôde perceber que não cabem simplificações dentro da condição humana no que tange tal assunto. Todo movimento é marcado de aspectos físicos e psíquicos, de consciência e inconsciente, de razão e emoção. Todo hábito, seja ele no âmbito da motricidade ou da postura corporal é marcado de psiquismo.

Nossa postura corporal reflete, em última instância, uma postura de vida.

Essa constatação traz em si um dilema ético. Seria correto, a partir de uma ideia de boa postura, enquadrar todo e qualquer sujeito em um padrão, desprezando conceitos como os de individualidade e particularidade? Será que o Pilates possui um corpo teórico capaz de nos ajudar a responder essa pergunta? Qual a medida da profundidade das reflexões de Joseph Pilates sobre esse assunto?

No capítulo IX de seu primeiro livro, Your health (1934), Joseph Pilates relata um dos seus principais objetivos ao escrevê-lo: a necessidade de se investir esforços na educação para a prevenção de doenças e injúrias, mais do que na própria cura. Para ele, uma educação em saúde visando prevenção, relaciona-se diretamente com o conceito de postura corporal.

Há evidências de que o método de condicionamento físico e mental – Contrologia – foi fundado a partir de uma consciência de seu criador do que seria uma boa postura. No entanto, seria uma precipitação assumir que Joseph Pilates definia um padrão ideal para todos, observe:

“A postura corporal é pregada livremente, mas não se compreende o que é a postura corporal. Constantemente escuta-se a expressão “cabeça para cima” e “ombros para trás’’. No esforço de jogar os ombros para trás, o indivíduo enverga demais suas costas (como um arco) e força suas escápulas contra sua coluna vertebral; e o mais danoso de tudo, projeta para frente seu estômago”. (Pilates, 1934)

Percorrendo esses textos não consegui encontrar uma frase que sintetiza-se sua opinião sobre o que seria uma boa postura (uma definição direta), contudo, no conjunto da obra podemos fazer as seguintes inter-relações:

- Uma boa postura relaciona-se diretamente com uma coluna vertebral (viga-mestra) que não possui excessos nas suas curvas fisiológicas;

- Uma boa postura deve expressar-se por um bom alinhamento dos segmentos corporais em relação à gravidade, de forma que se possa mantê-la a partir de um bom tônus muscular e não pelo apoio nos ligamentos e articulações, sobrecarregando-os;

- A boa postura é o reflexo de um equilíbrio entre a condição de força e flexibilidade de todos os músculos do corpo humano, principalmente os músculos que compõem o nosso “Power House”;

- Joseph Pilates enxergava a postura dentro de uma perspectiva psicocomportamental, pois considerava a má postura o reflexo de uma educação para o movimento inadequada, tendo suas raízes na infância;

- Joseph Pilates relacionava estados afetivos positivos com uma boa postura corporal (principalmente pela relação direta entre estática postural e respiração, elo entre o físico e o emocional);

- Joseph Pilates fazia uma relação direta entre boa postura e o conceito de funcionalidade.

Sobre este último aspecto, Pilates fez muitas considerações, veja:

“A postura adequada da coluna vertebral é o único preventivo natural contra a obesidade abdominal, o encurtamento da respiração, a asma, a pressão sanguínea alta ou baixa e várias formas de doenças do coração. Pode-se dizer com segurança que nenhuma das doenças aqui elencadas pode ser curada até que o encurvamento da coluna vertebral tenha sido corrigido”. (Pilates, 1934)

Sua perspectiva holística sobre a condição humana lhe permitia fazer certos tipos de inter-relações pouco comuns para sua época, prevendo que a desorganização das curvas fisiológicas da coluna vertebral pode afetar o funcionamento de órgãos, glândulas, vasos sanguíneos e nervos.

Além de tudo isso, outra informação relevante para que possamos refletir sobre as perguntas feitas no início do texto é que Joseph Pilates criava exercícios e aparelhos de acordo com o público que ele trabalhava. Um exemplo claro de como o conceito de individualidade sempre esteve presente em seu trabalho, o aparelho Ped-o-pull, foi desenvolvido especificamente para ajudar um famoso cantor de ópera a respirar com mais eficiência.

Se considerarmos que cada indivíduo adota uma atitude corporal que lhe é própria e que decorre de sua vivência psicocomportamental, e ainda, se podemos perceber que nossa postura corporal reflete, na forma de linguagem, o que muitas vezes as palavras não podem expressar, a atitude de formatar todo e qualquer sujeito em um padrão pode ser considerada um ato violento que vai contra o próprio legado deixado por Joseph Pilates.

Sendo assim, talvez seja necessário pensarmos em outros conceitos que sejam capazes de nortear nossas práticas tendo em vista os desafios que cada aluno nos apresenta. Que tal você refletir sobre o conceito de ADAPTABILIDADE?

Tente preparar o corpo e a mente de seu aluno para que, a partir de sua individualidade, ele possa ter a força, a flexibilidade e principalmente a liberdade para se adaptar às diferentes situações e solicitações ao longo de sua experiência de vida.

 

Pense nisso!

Alexandre Luzzi

Fonte: Revista Pilates

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